PSICÓLOGA DA CLÍNICA SAÚDE BRB
Pioneira em ações de prevenção na Instituição

Daniela Rosa Sampaio, integrante da equipe de Psicologia da Clínica Saúde BRB, ingressou na Caixa de assistência em agosto de 2007, ainda como estagiária, e tem feito uma bela trajetória na empresa. Leia, a seguir, entrevista concedida ao Mais Vida.

Mais Vida – Como foram esses quase dez anos de Saúde BRB?

Daniela Rosa – Minha primeira formação foi em Sociologia, mas a Psicologia sempre foi o meu grande amor. Quando eu decidi fazer Psicologia, ingressei com muita garra no curso, comecei logo a fazer estágio, já no segundo semestre. A minha formação anterior facilitou algumas coisas para a nova carreira que estava iniciando. Tive uma professora genial que apostou em mim. Desenvolvi projetos ainda na universidade e atuei em Psicologia desde o início do curso. Quando estava no sexto semestre, havia uma vontade também de conhecer a psicologia no ambiente corporativo, onde ainda não tinha atuado, foi aí que consegui o estágio na Saúde BRB por meio do CIEE. Existia o setor de psicologia clínica em auditoria e perícia, mas entrei na vaga para a área de RH. Fui aprendendo muito, pois ainda era uma área desconhecida pra mim. Tive total apoio gerencial para me desenvolver, mas percebi que não era o que me deixava feliz. Foi então que surgiu uma oportunidade para as ações de prevenção e meus olhos começaram a brilhar. A partir daí sabia que era em prevenção que queria trabalhar. Fui construindo esse novo saber, cuidando de um número maior de pessoas.

A diretoria foi me dando cada vez mais atribuições e investindo no meu potencial, mesmo sendo estagiária. Correspondi no que foram me colocando como desafio. Seis meses antes de me formar, depois de um ano e meio como estagiária, fui contratada. Em 2009, fui convidada a ir para a área de perícia e auditoria em saúde mental, mas continuei dando suporte, por um tempo ainda, à Prevenção. Fui acolhida com muita receptividade no novo setor. Nesse período, havia a necessidade de se montar algo maior do que fazíamos em cuidados preventivos, e que pudesse atingir um número maior de pessoas com continuidade. Uma empresa de consultoria foi contratada e iniciou estudos e planejamento de ampliação dos serviços oferecidos. Foi criada a ideia da Clínica Saúde BRB e junto com ela nasceu o embrião do programa Viver pra Valer para onde migrei. Com uma equipe interdisciplinar, a Clínica foi sendo montada e o projeto se concretizando. Nosso trabalho ganhou uma dimensão muito maior.

Atualmente, temos uma equipe multiprofissional com médicos, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e assistente social. Todos esses profissionais em conjunto oferecem um trabalho preventivo ao sujeito de escala fantástica. Os resultados que temos obtido são muito favoráveis. Tenho muito orgulho de fazer parte disso.

Mais Vida – Como é o trabalho que você desenvolve hoje na Clínica?

Daniela Rosa – A Psicologia veio para a Clínica com modelagem diferenciada da que temos atualmente. A área foi passando por modificações para se adequar aos novos projetos de prevenção que estavam sendo implementados. Na parte experimental, começamos a trabalhar com um modelo de psicoterapia que teve que ser modificado, passando para uma atuação mais breve e intervencionista, imediata na crise. Se uma pessoa está em sofrimento, não pode esperar para ser atendida e nossa fila estava muito grande. Amudança veio por nosso respeito ao beneficiário. Nossa atuação tem sido muito eficaz e muito rápida. Uma escuta qualificada no momento certo faz toda a diferença na vida do indivíduo.

Além dos atendimentos na Clínica, participo também do programa Viva Mulher, um grupo operativo em que trabalhamos as adversidades do mundo feminino. São oito encontros quinzenais com mais ou menos duas horas cada. O projeto está parado há um ano. Com a ampliação da Clínica, será retomada e terá uma sala própria. As mulheres chegam por indicação de médicos, enfermeiros e nutricionistas e a adesão é muito boa. Esses grupos são uma ótima solução para a alta demanda da Clínica e foram desenvolvidos como forma de ampliar os serviços oferecidos aos beneficiários. Aguardo ansiosamente o reinício do Viva Mulher, um projeto que teve um resultado muito bom.

Também faço visitas domiciliares a pacientes, que já estão sendo acompanhados por mim, e que, por alguma razão de saúde ou problema de locomoção, não podem se deslocar até a Clínica. Trato também questões familiares com abordagem sistêmica. Sou acionada pela assistente social para auxiliar famílias em crise, em sofrimento. A intervenção é domiciliar e pontual. Temos casos maravilhosos de sucesso que são “as meninas dos meus olhos” e me emocionam todas as vezes que lembro.

Mais Vida – Como os pacientes chegam aqui?
Daniela Rosa – Alguns já sabem da existência da Clínica, outros ouviram falar. Eles chegam através dos médicos. E os que já sabem da Psicologia, às vezes já chegam direto para nós – “Eu preciso da psicóloga. Preciso de alguém que me ouça”. Quando o sofrimento é intenso, ele sempre é acolhido. Os recepcionistas fazem essa captação, embora a nossa porta de entrada seja o médico de família. Ele passa por uma consulta com o médico, que faz a escuta e o direcionamento para as outras áreas. Mas o paciente pode vir pela gestão, pelos colegas, pelos líderes… o sofrimento grita e deve ser acolhido no momento em que chega.

Esse sofrimento também pode ser sufocado e aqui, ainda bem, a equipe de saúde tem uma escuta diferenciada e qualificada. Apesar de o paciente não pedir, não requerer nossa ajuda, o médico indica a psicoterapia. Faz essa quebra, pois ainda existe muito preconceito. É maravilhoso ter uma equipe interdisciplinar com esse olhar para a saúde integral do beneficiário. Poder contar com a ajuda dos colegas é fundamental para o sucesso do trabalho da Clínica.

Mais Vida – Você poderia citar um caso de sucesso que envolveu toda a equipe?

Daniela Rosa – Um que me marcou foi o tratamento de um paciente dependente químico, de crack, com muitos anos de uso. Fizemos várias tentativas na rede credenciada, com diversas internações, sem sucesso. O indivíduo, encaminhado pela GEVIT, já estava tendo diversas perdas profissionais, financeiras, familiares e sociais. Apenas o monitoramento não era suficiente, tínhamos que agir efetivamente no cuidado. Foi um caso muito desafiador, mas apostava que daria certo. Fazia atendimentos às vezes duas, três vezes por semana. Comecei o trabalho primeiro com a pessoa e tive que ampliar o tratamento a toda a família. Pedi ajuda de colegas para fazer os atendimentos individualmente. Posteriormente, tivemos um caso de reincidência e internação, foi quando pudemos contar com o apoio da assistente social, fundamental no caso. Foram entradas e saídas de profissionais e eu sempre estava lá. O trabalho de assistência social foi todo feito em domicílio. Trouxe a família para consultas na Clínica. Afamília estava em flagelo, em intenso sofrimento. O crack não corrói
só a pessoa, ele atinge todos à volta. Vários psicólogos e psiquiatras atuaram no caso, desmembrando-o em cuidados individuais. Essa família, está há quatro anos sem reincidência, em uma nova estruturação e significação. O indivíduo retornou às atividades e, hoje, está em desmame terapêutico. Agora é mais um monitoramento para a manutenção dos resultados. Conseguimos ter um olhar diferenciado para a questão da droga. Essa é uma história que valeu muito a pena.

O trabalho da Psicologia é um trabalho de bastidores e seu sucesso se reflete no outro. Comemoramos de forma contida e ficamos com o que nos cabe. O tratamento consiste em empoderar as pessoas a saírem de nossas vidas, a não mais precisar da gente. Aí sim temos a certeza que o trabalho foi realizado.

Mais Vida – Quais são seus projetos para o futuro?

Daniela Rosa – Agora estou apenas nos meus projetos terapêuticos, que me consomem boa parte do tempo. Mas, essa semana, estava em uma conversa com a assistência social que me falou a respeito de um programa novo, que está sendo elaborado, em oncologia, que eu nunca pensei em trabalhar. Confesso que pensei na possibilidade. Não fui convidada, não sei se existe um nome definido para esse trabalho, mas quem sabe será meu próximo passo na Clínica? Estou com a agenda bem cheia, mas sempre aberta a novos desafios e nada que impeça a busca de novos conhecimentos.

Mais Vida – É uma profissão de muitos desafios, não é?

Daniela Rosa – Com certeza. E ainda é cercada de muito preconceito. Tem pessoas que chegam para mim e dizem: “não sei o que estou fazendo aqui. Mandaram-me”. Eu sempre faço a pergunta: “onde dói? Você não veio aqui para me dizer que está tudo bem, me contar que está feliz. O seu sofrimento me importa e você não precisa estar sozinho, você pode estar acompanhado e eu quero acompanhar. Não sei como, não sei de que forma, mas vamos descobrir”. Tenho técnicas, estudo, faço cursos, mas quando estou com a pessoa, somos ela e eu. Vamos descobrir juntos a melhor técnica a ser utilizada, qual o melhor recurso da psicologia que eu vou usar para atuar com aquela pessoa. Tenho a minha leitura, a minha abordagem, mas é o outro que vai me ajudar a descobrir o melhor caminho.

Eu me cuido muito. Você precisa se cuidar para cuidar do outro. Tento sempre cuidar dos meus problemas para que eu esteja de forma integral para cuidar dos problemas que não são meus. Tem casos que me comovem muito, mas tenho práticas que me protegem.

Tenho uma filha de oito anos, a Maria Clara, um encantamento. Ela me ensina muito, me ensina a ser mais humana e uma profissional melhor. Depois dela, juro que fiquei melhor. Ela definiu minha profissão fazendo uma metáfora muito interessante: “mamãe, eu entendi o que você faz: na vida das pessoas, às vezes, a porta fecha. E quando essa porta fecha, a pessoa fica muito triste, desesperada, não sabe mais o que fazer. Aí ela procura você para você ajudar ela a buscar novos caminhos, que não necessariamente precisam ser pela porta, pode ser por janelas”. Fique admirada e emocionada com a forma que ela definiu uma profissão tão subjetiva como a minha.